sábado, 23 de agosto de 2008

Viva a cultura popular de Piracicaba!

Texto de Henrique Inglez de Souza

A manifestação dos representantes das entidades responsáveis pela oraganização do 1º Fórum em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba, na abertura do evento, na sexta-feira, 22, definiu os seus objetivos e as expectativas dos participantes. Manuel Guglielmo, do Conselho Municipal de Cultura, Rita Moura, da Associação Pró-Cultura de Piracicaba, e Chico Galvão, programador cultural do Sesc Piracicaba, defenderam a importância crucial do envolvimento da comunidade na defesa das manifestações da cultura popular da cidade.




Foto: Camila Gusmão






Chico Galvão, programador cultural do SESC Piracicaba
Segundo Chico Galvão, o que está em jogo, afinal de contas, são tesouros da cultura piracicabana. “O objetivo desse fórum é maior”, explicou. “Pretendemos redigir uma carta aberta em defesa dessas tradições, que hoje encontram-se ameaçadas, algumas delas até pelo desaparecimento”, completou. E, para dar o tom da importância do tema, enfatizou: “Viva a cultura popular de Piracicaba!”.

Foto: Camila Gusmão














Manuel Guglielmo, do Conselho Municipal de Cultura e Rita Moura da Associação Pró-Cultura de Piracicaba
Chico Galvão lê texto de sua autoria na abertura do Fórum:

Batuque de Umbigada abre Fórum

Texto de João Lopes e Iuri Botão
O 1º Fórum em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba teve início na noite de sexta-feira, 22 de agosto. O grupo Batuque de Umbigada começou sua apresentação às 20h, com a participação do mestre batuqueiro Herculano, da cidade de Tietê.
Foto: Camila Pinto














Apresentação do Batuque de Umbigada na abertura do Fórum

Vanderlei Bastos, organizador e participante, falou sobre a história e as origens da dança, além de contextualizar os espectadores a respeito do que acontecia no palco. Participaram da apresentação jovens do projeto “Casa do Batuqueiro”, que fazem parte da nova geração do batuque de Piracicaba.

Mestre Herculano ainda cantou e tocou músicas conhecidas do público, como uma adaptação da música de Newton de Almeida Mello, que hoje é hino de Piracicaba, feita por mestre Dado.
Após o Batuque, o poeta piracicabano Marcha Lenta declamou uma poesia em homenagem ao aniversário da cidade de Piracicaba.
Confira trecho da apresentação do Batuque de Umbigada, no Teatro do Sesc:

Catira: tradição dos pés e das mãos

Texto de Rafaela Ometto e Vanessa A. Haas

Uma dança acompanhada pelo som de uma viola e pelas batidas de pés e mãos resume a Catira. A tradição cultural é preservada em Piracicaba unicamente pela família Cantovicz, e representada em uma única palavra: envolvimento. O bater dos pés e das mãos acompanhando o som da viola e as rimas do violeiro remetem às antigas comemorações a vários santos, porém, ela não é mais tão conhecida como antes.

Foto: Rafaela Ometto catira









Família Cantovicz dançando a Catira

Em Piracicaba, a Catira é passada de geração em geração, através de uma família que se reúne para cantar e dançar ao som da viola, embalada por Laurindo, 70 anos, único violeiro que “bate bem a Catira”, e se desloca de Anhembi a Piracicaba simplesmente para fazer o que mais ama. Seu filho, Valmir, 44 anos, o acompanha na cantoria e considera importante que haja essa transmissão de valores familiares, uma vez que eles são os únicos representantes que restam da dança. O tema abordado nas rimas esquematizadas ao som da moda de viola enfoca a natureza, a religião e principalmente a importância que tem a preservação dessa tradição.

Falta de apoio do poder público e desconhecimento por parte da população “nativa” do interior, transformaram a Catira numa palavra estranha de se ouvir e se falar. Graziela Cantovicz, 34 anos, dança entre os homens da família e pode ser considerada uma das poucas mulheres que participa. Ela enfatiza que a falta de incentivo para tradições populares num geral existe sim, e garante que a cidade deixa se receber turistas e se tornar também reconhecida por essas atividades por não investir adequadamente na cultura local, que é muito rica.

Foto: Rafaela Ometto

Catira: tradição de pai para filho


Por conta do Dia do Folclore, comemorado no dia 22 de agosto, acontecem mais apresentações das manifestações culturais, porém, segundo Clayson, 36 anos, é somente nesta época que acontecem. Nas apresentações já feitas pela família Cantovicz, que acontecem normalmente em São Paulo, o público recepciona muito bem, acolhe e gosta da dança, passando a admirar a verdadeira Catira que a família transmite.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Batuque de Umbigada

Texto de João Lopes e Karla Morato


O “Batuque de umbigada” dança originaria da África trazida ao Brasil pelos navios negreiros na época de colonização e instalada na região do Médio Tietê (Tietê, Porto Feliz, Laranjal, Pereiras, Capivari, Botucatu, Piracicaba, Limeira, Rio Claro, São Pedro, Itu, Tatuí) é uma manifestação que vem sendo preservada em Piracicaba e transmitida por gerações.


Foto: Claudia Assêncio








Representantes do Batuque de Umbigada em quatro gerações


Dança que assemelha o movimento do corpo com o axé e a capoeira tem como principal função festejar a fertilidade. “O Batuque é uma manifestação em que, junto à batucada, há uma dança na qual um homem e uma mulher encostam seus umbigos como parte da coreografia”, comenta o representante da tradição cultural Vanderlei Bastos. O elemento principal da coreografia é a "umbigada", ou seja, quando o ventre da mulher bate à altura do ventre do homem. Os participantes dão passos laterais arrastados, depois levantam os braços, batendo palmas acima da cabeça, inclinam o corpo para trás e dão vigorosas batidas com os ventres. Esse gesto é repetido ao fim de todos os passos. “A umbigada tem uma espiritualidade muito grande. Dentro da cultura banto existe a visão de que o umbigo é a nossa primeira boca e o ventre materno a primeira casa, a umbigada celebra o momento único em que eles se tocam, é como uma ode, um agradecimento ao dom da concepção, uma ação rápida e mágica, materializada através da dança” explica Bastos.

Na dança são utilizados os seguintes instrumentos: o tambú, uma espécie de tambor feito de tronco oco de árvore; o quinzengue, um tambor mais agudo que faz a marcação rítmica do tambú e nele se apóia; as matracas, que são os paus que batem no tambú do lado oposto do couro e os guaiás, chocalhos de metal em forma de cones ligados. todos os instrumentos que levam couro, são afinados em uma fogueira, tornando mais mágico e característico o ritual. Em cada parte do Brasil o batuque recebe algumas variações tornando cada vez mais característico esse estilo que deu origem ao tão famoso samba.

Alguns grupos preservam essa tradicional dança fazendo festas e eventos para trazer o povo para essas belíssimas demonstrações de cultura afro-descendente. As festanças mais comuns são as de datas fixas, como a do dia 13 de maio, a festa de São Benedito em Tietê e o sábado de Aleluia. Há workshops para levar a manifestação à população e acabar com os preconceitos sobre as culturas africanas e indígenas.


Foto: Claudia Assêncio

Dona Benedita, representante da primeira
geração do Batuque de Umbigada

Congada do Divino: renovação e preservação da história

Texto de Iuri Botão e Mariana Fiocco


A Congada do Divino de Piracicaba, que tem coordenação de Roberta Lessa, mantém um grupo folclórico que preserva suas tradições. Além do grupo principal, formado por cerca de 60 adultos, há ainda outros projetos como a “Congada Viva”, que busca reunir arquivo fotográfico e documental a respeito da história do movimento, e o o “Congada Mirim”, para-folclórico de crianças para dar sustentação ao principal.





A Congada do Divino teve origem em uma dança pagã que homenageava os reis do Congo, na África. Uma vez no Brasil, trazida pelos escravos, a dança passou a ter caráter de resistência ao aculturamento a que eram submetidos. Encampada pela Irmandade do Divino Espírito Santo, ela foi “divinada, para que pudesse fazer parte dos da Festa do Divino”, segundo Roberta.

Durante a apresentação, são feitas cinco danças diferentes: a Congada, de saudação entre o Rei e a Rainha; a Dança do Lenço, que é um ritual de acasalamento; a do Tangarás, que é uma saudação à Piracicaba e ao Rio; a Caninha Verde, que tem objetivo de descontrair; e o Baixão, que é de abertura. Nos ensaios, bem como em apresentações em eventos não-religiosos, a imagem de Nossa Senhora permanece deitada, só sendo colocada em pé nas festas religiosas.

Segundo Roberta, a Congada de Piracicaba pleiteia o tombamento oficial enquanto patrimônio histórico e cultural do município junto ao Codepac (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba) além de estarem em contato com o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para dar maior fidelidade à Congada enquanto manifestação folclórica.

A Rainha, Maria Aparecida dos Santos (foto), “dona Tita” de 79 anos, que participa da Congada há 52 anos, considera que desde que participa da Congada não ocorreram grandes mudanças na dança. Patrícia Macedo, 22 anos, é regente desde os 12 e tem opinião diferente. Ela considera que a dança sofreu várias mudanças nos últimos anos devido ao “envelhecimento” dos participantes, que atualmente não têm condições de fazer os mesmo giros de antigamente.

O grupo piracicabano costuma se apresentar em diversas ocasiões e locais do país, quando são convidados. A apresentação principal ocorre anualmente na Festa do Divino, na segunda semana do mês de Julho.



Depoimento de "Dona Tita", Rainha da Congada



Trecho de ensaio da Congada do Divino, no Largo dos Pescadores

Cururu: uma paixão a ser preservada

Texto de Vanessa Haas e Camila Gusmão

Tradição folclórica do interior de São Paulo, o cururu tem presença importante em Piracicab e será uma das manifestações defendidas no 1º Fórum em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba.

Cururu é o desafio trovado ao som de violas, mais comum no Médio Tietê. Seus respresentantes são numerosos e respeitados cururueiros e trovadores. Não há Festa ou Pouso do Divino sem o som do Cururu, que muitas vezes se prolonga pela noite afora com o revezamento de vários cururueiros.










Com presença significativa na região do Vale do Tietê, nas cidades de Conchas, Laranjal Paulista, Piracicaba, Tietê, Porto Feliz, Tatúi, o Cururu já foi apresentado no exterior por vários cururueiros.Um trovador que teve experiência foi Antônio Santos Filho, 73, mais conhecido como Bandeirante, que se apresentou aos franceses juntamente com seu parceiro Mané Moreira.


Confira depoimentos do curueiro Bandeirante sobre o tema:


Como foi representar o Brasil na França?
Bandeirante: Tive a felicidade de representar o folclore brasileiro na Europa. Foi uma virtude para nós representar o Brasil no exterior e essa foi uma coisa de Deus. Eu participo do folclore brasileiro mesmo, toda tradição é comigo mesmo”.

Mazero gravou CDs e DVD
O conhecido cururueiro João Mazero já gravou duas séries de Cds - “Gracia do Cururu” e “Os ban ban ban do Cururu” e um DVD - “Piracicaba x Sorocaba”. Para ele, mais que uma profissão, o cururu é uma paixão.

Confira algumas de suas falas:

Onde o senhor já se apresentou?
Mazero: Gosto muito dessa profissão, tanto canto cururu sério como brincando. Faço shows e já tive a felicidade de me apresentar em todos os canais de televisão. Tô no meio desses campeões ai, Abel Bueno, Bandeirante. Comecei a cantar o Cururu transmitido pela rádio Educativa FM, de Piracicaba, e dali em diante já cantei em vários pousos do Divino, tenho muita amizade com todos os cantadores.

O Cururu original sofreu muitas mudanças?
Mazero: Sim teve. Antigamente o Cururu era cantado com muito respeito, a gente pedia licença para o dona da casa onde seria o pouso, hoje é mais brincadeira.

Tradição do Cururu não recebe apoio

Segundo Abel Bueno (foto) , 75, cururueiro desde 1954, com prestígio nacional, o nome Cururu tem origem em dois significados: “o caldo de feijão que era servido antigamente com caruru, antes de se iniciarem as orações, e o sapo cururu que pula em roda, pois o Cururu era cantado em roda”.

Seu Abel conta que cantava Cururu quando este ainda era tido como uma oração, uma devoção a algum santo. O cururu era cantado nas festas do divino e tinha temas religiosos, mas com o tempo a tradição foi se modernizando e atualmente é um desafio de quatro cururueiros, dois contra dois.
“O Cururu em si nunca vai acabar, apenas os cururueiros que morrem, o Cururu permanece. O Cururu chegou em Piracicaba em 1937, antes dos pousos, o qual o primeiro foi realizado em 1948 na zona urbana de Piracicaba, na casa do Ribeiro, ele existe a muito tempo”, conta Abel.

Abel, Bandeirante, Milo da Viola e Dirceu Chiodi também não se conformam com a falta de apoio ao Cururu e as demais tradições. “Não há mais incentivo, os mais novos não gostam do Cururu e com razão, pois não foi ensinado a eles o sentido disso, não foi mostrado o Cururu legítimo”, fala Bandeirante.

“Se os nossos políticos incentivassem essas tradições, seria mais fácil ser um Cururueiro e poder ensinar o que é o cururu. Falta apoio. Falta valorizar a história”, enfatiza Abel Bueno

Vídeos da entrevista:





Caninha Verde



Cururu Legítimo



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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Hoje tem Samba de Lenço!

(Henrique Inglez de Souza e Cláudia Assêncio)

O Brasil tem genuínos representantes de sua cultura em variadas formas de expressão. Das mais populares, o samba desbanca com vantagem as demais. Pergunte a um estrangeiro, por exemplo, o que ele sabe sobre nosso país e o clichê “samba e futebol” vem quase de imediato. Pejorativo? Não, apenas a demonstração do que um patrimônio cultural rico é capaz de promover.

Dentro do samba também há subgêneros que mudam conforme a região. Em São Paulo, a forma mais conhecida atualmente é o cosmopolita. Suas origens apontam raízes cravadas no interior do Estado, em cidades como Piracicaba. Entre essas raízes está o samba de lenço, que tem o uso de um lenço como seu adorno mais característico.

Ficam homens de um lado e mulheres do outro, cada um com seu lenço respondendo à entoada dos cantadores. No enredo das letras destacam-se temas cotidianos e pequenas crônicas de acontecimentos locais: homenagens, sátiras, romance. Tudo embalado à levada de instrumentos de percussão (pandeiro, caixa e chacoalho – geralmente artesanais).

Hoje, o samba de lenço já não acontece com a mesma intensidade de outrora. São poucos os que transmitem o que sabem às gerações emergentes. Um deles é Antônio Carlos Ferraz (foto), que aos 94 anos é um dos últimos remanescentes dos áureos tempos do samba de lenço piracicabano. “Os mais velhos começavam o samba e logo vinham os jovens”, recorda-se. “Se alguém cantasse uma modinha bem bonita, outro iria logo querer cantar uma melhor. Era à base do improviso mesmo”.

A Antonio Carlos juntam-se aqueles que ainda mantêm a tradição viva, como sua filha Ana Luiza Ferraz, 61, e o músico e agente cultural Antonio Filogenio de Paula Junior, 37. Os três concederam entrevista sobre o samba de lenço.

Quando é mais comum acontecer as festas com samba de lenço?

Ana Luiza: Especialmente, na época de Festa Junina. Ao invés de se dançar a quadrilha, rezávamos o terço, reuníamos todo o povo e iniciávamos o samba de lenço.

Quais modinhas vocês lembram?

Seu Antônio: Havia umas modinhas engraçadas, como: ‘Em Tietê, muita gente quer ser eu/ Furaram seu chapéu como furaram o meu’. Em seguida, formava-se a festa, com um cantando e outro respondendo.

Ana Luiza: Também tem aquela: ‘O Doutor é bom, Seu Luís ainda melhor/ Dona Ana, prata fina, e Seu Luís é ouro em pó’. A turma respondia: ‘Cocoró-cocó, cocoró-cocó/ o galo passa ruge e a galinha passa pó’.

O que poderia ser feito para reafirmar o samba de lenço?

Junior: Um dos caminhos para revitalizar o samba de lenço é colocar as crianças novamente em contato com essa tradição. É atualizar. Toda cultura tradicional, quando não se torna contemporânea, fica fadada à extinção. Vira um produto folclórico, uma peça de museu. Ela deixa de ser viva por não ser mais autêntica. Por exemplo, não podemos esperar que uma criança hoje cante uma modinha que fale de carro de boi. Ela não convive com isso e nem vê isso. É uma outra realidade. A geração atual tem que dialogar com as informações do seu tempo. Essa atualização é uma adaptação necessária para que a cultura do samba de lenço continue viva.


Vídeos da entrevista:


Afinação do Pandeiro



Modinhas






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