terça-feira, 26 de agosto de 2008

Carta Aberta em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba

"Nós, artistas, agentes, produtores culturais, gestores de associações culturais, poetas, participantes de redes de cultura e pessoas afins, reunidos no SESC Piracicaba, Estado de São Paulo, entre os dias 22 e 24 de Agosto de 2008 no I Fórum em defesa das Tradições Populares de Piracicaba, após vívida discussão sobre os temas que são comuns a todos e trocas de conhecimentos sobre a realidade pontual de cada grupo, entendemos que:

Piracicaba é berço da cultura caipira e abriga em seu seio, manifestações que nos remetem a própria formação do povo brasileiro, miscigenada pelo índio, o negro e o branco colonizador. Forjada nesse ambiente rural, banhada por um rio de muitos causos e lendas, em tempero genuíno, essas manifestações aqui afloradas como o batuque de umbigada, o samba de lenço, samba de roda, o cururu, a catira, a viola caipira, a congada do Divino, a Festa do Divino e o Boneco do Elias, que dialogam permanentemente com o seu tempo e seu espaço, necessitam de um apoio à altura de sua importância para a construção da identidade cultural brasileira.

Para tanto ressaltamos a necessidade de uma intensa política cultural em defesa desse patrimônio intangível, sendo ele definido pela UNESCO em 2003 na Convenção para Salvaguarda do Patrimônio Cultural Intangível como :

“as práticas, representações, expresões, conhecimentos e habilidades – assim como instrumentos, objetos, artefatos e espaços culturais associados a isso – que comunidades, grupos e, em alguns casos, indivíduos reconhecem como parte de seu patrimônio cultural. Este patrimônio cultural intangível, transmitido de geração a geração, é constantemente recriado por comunidades e grupos em resposta a seu meio ambiente, a sua interação com a natureza e sua história e fornece-lhes um senso de identidade e continuidade, assim promovendo respeito pela diversidade cultural e pela criatividade humana.”

Dado também que a Constituição brasileira de 1988 introduz no capítulo III, Seçâo 2, artigo 216 a promoção de patrimônio imaterial, culminando esta ação com o decreto 3551 de 04 de agosto de 2000 que institui o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, apresentamos esta carta que tem como objetivo dar início a um processo de dignificação das tradições aqui colocadas, indicando ações, fazendo alertas e reivindicando a adesão de todas as pessoas, poder público e privado, convocando-os a participar ativamente desse processo.

Inseridos nessa perspectiva propomos:

- Criar novas formas de comunicação entre artistas populares por meio de uma produção cultural baseada em um programa de oficinas e apresentações contínuas dos grupos e artistas para fortalecer os laços sociais e fomentar a criação de público para uma ação política cultural.

- Propor atividades que contemplem as origens de cada uma das manifestações da arte popular tradicional, incluindo no processo, ações práticas e teóricas, sempre sendo as mesmas repensadas através da praxis;

- Buscar na parceria ou nos convênios com o poder público e privado a justa e digna remuneração das apresentações, dos cursos, das oficinas e apoio aos projetos que desenvolvem esta temática ;

- Oferecer oficinas sobre a cultura popular de Piracicaba, embasadas nas lei federais 10.639 e 11.645/8, em escolas públicas (estadual e municipal) e particulares, equipamenteos de cultura e espaços alternativos (parques, sindicato, universidades, ONGs, OSCIPs entre outros.)

- Porporcionar ações permanentes para capacitação e formação de agentes multiplicadores.

- Fortalecer as diversas manifestações em seus locais de origem.

Piracicaba, 24 de agosto de 2008.

I Fórum em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba

Sueli Pereira Silva – Esalq/USP
Julia Corrêa Giannetti – dançarina
Vanderli Bastos – Batuque de umbigada
Ediana Maria de Arruda – Samba de lenço
Eduardo Gomes T’osumare – religiões de afro-descendência
Carlos Roberto Crivellari – carnaval
Fátima Ap. Eugênio – Sociedade Beneficente 13 de maio
Luiz Valério – Cururu
Antonio Filogênio de Paula Jr – Batuque de umbigada
Iara Machado – antropóloga
Olívio Antonio Menghini – Congada do Divino
Dirceu José Chiode – Cururu
Naiara Lima – COOPEP e CELACC
Rita Moura – Associação Pró-Cultura de Piracicaba
Jonatas Antunes – Cururu
Rau Rozados – ator
Abel Bueno – Cururu
Moacir Siqueira – Cururu
Antonio Carlos de Oliveira Jr. – Poeta sertanejo
Roberta Lessa – Congada do Divino
Pedro Chiarini Neto – Congada do Divino
Stevenson Moschini Carlos – Congada do Divino
Manuel Guglielmo – Conselho Municipal de Cultura
Bandeirante – Cururu
Francisco Galvão - SESC

Maria Virginia G M. Pinton, Artista Plástica e Arte educadora


(Mayara Cristofoletti)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Leitura da Carta Aberta em Defesa das Tradições Piracicabanas marca o encerramento do Fórum

(Vanessa Piazza)

Com o objetivo de alertar as autoridades locais, estaduais e nacionais sobre a necessidade de preservação do patrimônio cultural imaterial da cidade, o 1° Fórum em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba, ocorrido no Sesc Piracicaba entre os dias 22 e 24 de agosto, encerrou as atividades com a leitura de uma Carta Aberta que propõe ações para o fortalecimento das manifestações populares da cidade, bem como para a manutenção da identidade cultural do município. (Leia o documento na íntegra)

De acordo com Chico Galvão, programador cultural do Sesc, “a Carta em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba foi redigida a muitas mãos e a expectativa é que ela traga mais apoio por parte das iniciativas privada e pública, para que os elementos da cultura popular da cidade possam ganhar mais visibilidade na comunidade local e atrair um número maior de admiradores e protetores comprometidos com a manutenção das características originais das manifestações”.

O conteúdo do documento foi elaborado de acordo com as carências e necessidades apresentadas no decorrer do Fórum por integrantes e representantes das diversas manifestações piracicabanas, como o batuque de umbigada, o samba de lenço, o samba de roda, o cururu, a catira, a congada do Divino e os Bonecos do Elias.

Ainda na perspectiva da conservação e resguardo da cultura popular de Piracicaba, pretende-se criar um calendário anual com eventos que busquem fortalecer os laços sociais entre as tradições e também fomentar a criação de um público que participe ativamente das manifestações.

Vale ressaltar que este foi apenas o ponto de partida. Portanto, faz-se necessário que outros Fóruns ocorram e que a comunidade em geral se comprometa com o rico acervo cultural da cidade, para que a História e a Memória do povo piracicabano possam ser mantidas e preservadas.

O Fórum foi organizado pelo Conselho Municipal de Cultura (ConCult), pela Associação Pró-Cultura, pelo Sesc Piracicaba e contou com a parceria do curso de jornalismo da Unimep ( Universidade Metodista de Piracicaba).


Congada do Divino se apresenta no último dia do Fórum

(Mayara Cristofoletti)

No domingo, dia 24, o 1º Fórum em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba abriu seu último dia de discussões com uma apresentação da Congada do Divino, na lanchonete.

A apresentação contou com todos os cinco tipos de dança que o grupo realiza, como a Dança do Lenço e Caninha Verde e, no final, até mesmo os espectadores foram convidados a dançar junto ao grupo.

O grupo da Congada do Divino foi uma das tradições defendidas pelo Fórum devido a sua importância histórica na tradição cultural da cidade. A Congada faz parte de uma das principais comemorações de Piracicaba, a Festa do Divino, uma antiga manifestação religiosa em devoção ao Divino Espírito Santo.


Confira trecho da apresentação do grupo:

Rodas de Conversa unem tradições visando ações em conjunto

(Iuri Botão e Karla Morato)

As rodas de conversa do sábado, 23, foram marcadas por uma característica principal: ressonância. Enquanto a programação previa rodas individuais para que cada grupo discutisse seus problemas e apresentasse novas soluções, o que ocorreu foi uma roda unificada, coordenada por Manuel Guglielmo, do Conselho Municipal de Cultura, e Rita Moura, da Associação Pró-Cultura de Piracicaba, que repetiu muitas das discussões da manhã de sábado.

Após a apresentação de Cururu, todos os representantes das tradições que estavam no SESC formaram uma única roda de conversa, visando que os problemas específicos de cada tradição fossem discutidos por representantes de todas elas.

Dando início à conversa, Guglielmo sugeriu que se discutisse a possibilidade de criação de um espaço que servisse tanto para educação e propagação da tradição, quanto para que os “cururueiros” pudessem se apresentar com mais freqüência, criando assim um público.

Após esse momento, a tônica da discussão ficou em torno da necessidade de união entre as manifestações. A divisão de opiniões era entre a criação de um único ponto, para todas as tradições, ou de um circuito, para facilitar o acesso da população da periferia, que teria dificuldade de se unir em um só local por conta do transporte. Em meio à discussão sobre a criação de um novo ponto, a pesquisadora Iara Machado colocou a questão da burocracia para se criar um novo local e contar com verbas municipais, e que, assim, seria melhor usar espaços já existentes.

Outra proposta referente às verbas do poder público foi a transformação da Casa do Povoador em museu, o que contaria com verbas do poder público. Gustavo Torrezan citou apenas que a Casa do Povoador teria dificuldade de abrigar todas as tradições de uma só vez.

Finalmente, Vanderlei Bastos, do Batuque de Umbigada e Fátima , citaram a necessidade de parceria com a Educação, para que se criassem propostas pedagógicas e que o espaço das escolas pudesse ser usado também com essa finalidade.

No fim da tarde a decisão foi de concluir o debate no domingo.

Cururueiros dão show e animam Fórum

(Vanessa Faria)

As atividades do sábado à tarde, segundo dia do 1º Fórum em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba, tiverem início com a apresentação de Cururu, que reuniu diversos curueiros da cidade.



A apresentação contou com a participação de Abel da Silva Bueno, cururueiro há 54 anos. Apaixonado pela tradição, ele se apresenta todos os sábados na região de Piracicaba, onde segundo ele, nasceu a tradição do cururu, e o seu dom de fazer rimas. “Tudo nos serve de inspiração para a criação das rimas, o canto das piracemas, o rio de Piracicaba e a natureza”, disse após a exibição.

Abel Bueno considera importante a iniciativa do Fórum de divulgar o folclore brasileiro e diz também que o poder público poderia dar mais atenção para as tradições populares, incentivando as crianças e os jovens através de oficinas de folclore ou fornecendo um espaço para que elas aconteçam.

domingo, 24 de agosto de 2008

Lideranças iniciam debate de Carta Aberta

(César Cabrera)

A Comissão responsável pela elaboração da Carta Aberta em Defesa das Tradições Populares de Piracicaba realizou sua primeira reunião na manhã deste sábado ,23. O grupo é formado por representantes da Catira, dos Bonecos de Elias, do Cururu, da Congada do Divino, do Batuque de Umbigada, do Carnaval, do Samba de Lenço, membros de associações culturais, do Conselho Municipal de Cultura e outras instituições da cidade interessadas no tema.



O objetivo foi dar início às discussões dos assuntos que serão incluídos na Carta, que será concluída na tarde de amanhã (24). O encontro teve início com a exposição pelo Programador Cultural do Sesc, Francisco Galvão, o Chico, da proposta de dinâmica a ser usada na reunião.

Um ponto relevante do encontro, unânime na opinião de todos, foi a falta de um representante do ensino do município. “Seria interessante que houvesse alguém da Diretoria de Ensino nesta reunião”, lembrou a professora de arte e artista plástica Maria Virginia Pinton. Luiz Veloso, do Cururu, defendeu também a importância de que as tradições sejam inseridas no ambiente educacional, e afirmou que “a educação é fundamental em todas as atividades”. Seguindo esta linha, Vanderlei Bastos - do Batuque de Umbigada - falou que “tudo é questão de educação. As manifestações Culturais do nosso município devem chegar às crianças também através das escolas”.

Outro assunto que fez parte da colocação da maioria dos presentes foi a importância de resgatar, registrar e transferir para as gerações futuras cada tradição. Para Roberta Lessa – uma das representantes da Congada do Divino - “se a gente não guarda a memória, ficamos sem raiz”. “As manifestações que fazem nossas raízes”, complementou Manuel Guglielmo – do Conselho Municipal de Cultura.

Após todos exporem suas idéias sobre o tema, deu-se início a colocação das propostas para elaboração do documento e também de demais ações culturais para resgatar o patrimônio imaterial do município. Os principais pontos foram:

- Levantamento dos espaços físicos disponíveis para futuras apresentações dos grupos;

- Inclusão dos números das leis existentes relacionadas à cultura; inclusive o número da lei municipal que obriga o prefeito eleito no próximo ano (2009) à criação e construção de um espaço que abrigue as manifestações culturais;

- Exigir mudanças – quando necessário - nas leis existentes, para melhor proteger as manifestações imateriais (foi lembrado que o Codepac - Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico Cultural não tem leis que protejam manifestações culturais imateriais);

- Cobrança pessoal – e não só através da carta - por parte dos membros do Conselho junto às autoridades municipais;

- Realização de manifestação cultural conjunta, onde estejam presentes todas as manifestações do município;

- Inclusão do poema de autoria de “Marcha Lenta”, lido na noite de ontem (22);

Vale lembrar que no período da tarde de hoje serão realizadas rodas de conversa de cada tradição, onde surgirão novas idéias a serem incluídas no documento final.

Poeta declama na abertura do Fórum

(Camila Gusmão)


Marcha Lenta, Poeta Sertanejo declamou na abertura do Fórum a poesia “Noiva da Colina” de sua autoria.
Antonio Carlos de Oliveira Júnior, mais conhecido como Marcha Lenta, já publicou três livros, o mais recente “Poesias Sertanejas”.




Noiva da Colina

Dia primeiro de Agosto
É um dia de muito gosto
Parece que vejo o rosto
Daquela linda menina
Que de noiva se vestiu
E tanta glória conseguiu
Na linda cachoeira do rio
Formando serração fina
As veis eu olho pro céu
Contemplando tiro o chapéu
Parece que vejo o véu
Da linda noiva da colina
Piracicaba tem muito progresso
A Deus eu sempre peço
Que aumente o sucesso
Com a proteção Divina
É coisa sincera e pura
Que vai tê muita ventura
Feita com grande estrutura
Também muita disciprina
Fais coisas de grande valor
Que transporta pro exterior
Fabricado com muito amor
Da linda noiva da colina
Piracicaba é potencial
É cidade industrial
O antigo Engenho Central
Foi uma das primeira Usina
Que dos grandes cafezais
Transformou em canaviais
Que até combustível fais,
Substituindo a gasolina
Tem no esporte um grande membro
Da linda Noiva da Colina
Piracicaba é uma cidade paulista
Que tem muitos artista
O combate dos repentista
Num precisa carabina
O armamento é a viola
O violeiro que controla
Piracicaba tem boa escola
Pra ensiná a medicina
O meis de agosto temos festejano
Piracicaba aniversariano
Duzentos e quarenta e um anos
Parabéns linda Noiva da Colina!




Marcha Lenta

Marcha Lenta declama "Noiva da Colina":